Alentejanos à descoberta do norte de Portugal

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Como já se tornou habitual, pelo final de abril ou princípio de maio, quando a primavera amena convida a passear em grandes incómodos, realizámos o nosso passeio anual de três dias. Mais uma vez apoiados pelo Instituto Nacional de Reabilitação, desta vez fomos conhecer melhor o norte-centro do País, entre Viseu e Chaves.

Recolhemos os 40 passeantes em Estremoz, Évora, Montemor e Coruche, manhã cedo de sexta-feira, dia 3 de maio. O almoço do primeiro dia foi em Tonda, já no centro do País, onde nos enfrentámos com a tradicional chanfana, orgulho gastronómico das gentes da Beira Interior. Chegados a Viseu, concretizámos um dos pontos fortes deste passeio: a visita ao Museu Nacional Grão Vasco. Naturalmente, a maior atenção recaiu na obra do pintor Vasco Fernandes (c. 1475-1542), o “grão” pintor do tempo de D. Manuel e de D. João III que dá o nome ao Museu, e, de entre as sua pinturas aqui recolhidas, demorámo-nos no retábulo que ele pintou para a capela-mor da cidade, constituído por 18 quadros, dos quais 15 chegaram até nós, estando 14 expostos neste Museu. Encomenda do bispo da cidade, o retábulo foi executado entre 1501 e 1506, tendo como temáticas a vida da Virgem Maria, a infância e a paixão de Cristo. Um dos quadros, o da Adoração dos Reis Magos, tem um extraordinário valor histórico: o rei mago Baltazar, tradicionalmente representado como sendo negro, para significar que também de África se deslocara um rei a adorar Jesus, é aqui representado como “índio” do Brasil, terra que Pedro Álvares Cabral deu a conhecer à Europa no ano de 1500. O pintor, para representar assim aquele rei, seguiu seguramente as informações que sobre os habitantes desse novo mundo foram transmitidas a D. Manuel por Pero Vaz de Caminha, na sua famosa carta ao rei sobre o “achamento” da Terra de Vera Cruz. Durante a visita ao Museu tivemos a surpresa e a honra de sermos saudados pela diretora, Odete Paiva.

De seguida, fomos conhecer a Sé da cidade onde se destaca a magnífica igreja com a sua abóbada dos nós da época de D. Manuel I e o claustro renascentista, obra, esta, da época do bispo D. Miguel da Silva, eborense de nascimento.

Depois das tarefas do alojamento e do jantar, muitos passearam pelo centro histórico de Viseu, com passagem por festa de promoção de produtos tradicionais na comemoração dos 140 anos do mercado 2 de maio. Na manhã seguinte começámos por visitar a chamada “Cava de Viriato”, que, tudo indica, corresponde ao assentamento de um importante acampamento romano do século I a. C., com um perímetro de cerca de dois quilómetros; aproveitámos para fixar em fotografia o grupo em frente da estátua do chefe lusitano Viriato.

Chegados a Lamego visitámos o santuário de Nossa Senhora dos Remédios, edifício do século XVIII onde apreciámos os belos vitrais e a azulejaria com cenas da vida da Virgem e os mais corajosos fizeram a descida do “monte sacro” pela monumental escadaria de 686 degraus.

Cansados, retemperámos forças com uma prova de produtos regionais. De seguida, deambulámos pelo centro histórico, com visita à catedral, obra que acumula exemplos das artes de construir do Românico, do Gótico, do Manuelino, da Renascença e do Barroco.

Depois rumámos ao vale do Douro, classificado como património da humanidade, almoçando na Régua em restaurante alcandorado com o rio aos pés, desfrutando de um espantoso panorama onde a mão do homem produziu, no passar dos séculos, uma obra grandiosa, moldando as encostas em socalcos.

Subimos depois até Chaves onde começamos por visitar um dos mais novos museus do País, este dedicado à obra de pintura do arquiteto Nadir Afonso (1920-2013), natural da cidade. O edifício, de volumes despojados, sem aberturas visíveis, denuncia à evidência o risco de Siza Vieira, o nosso mais renomado arquiteto. Localizado na margem do rio Tâmega, o edifício assenta em muretes altos perpendiculares à margem, assim ficando protegidos das cheias regulares. Guiados por um técnico do Museu, ficámos a conhecer um pouco da obra deste pintor que marcou o Modernismo Português; a sua obra, muito depurada, parte quase sempre da realidade e é dominada pela geometrização das formas, acusando à evidência a sua formação de arquiteto. Foi influenciado pelo Abstracionismo, pelo Expressionismo e pela Arte Cinética (que “representa” as formas em movimento) e produziu uma pintura alegre e muito decorativa.

O alojamento foi numa unidade hoteleira que recuperou as estruturas do antigo Mosteiro de S. Francisco que, no século XVII, foi protegido por um forte abaluartado e que chegara em ruínas ao final do século XX.

Na manhã do terceiro dia ainda tivémos oportunidade de visitar o centro histórico de Chaves, o que resta do seu castelo, o Museu, e, junto ao rio, a ponte romana e as termas da cidade que operam desde o tempo da ocupação romana.

No regresso ao sul, ainda tivemos oportunidade de uma paragem em Boticas, para uns momentos de repouso em passeio pelo parque da vila onde se homenageia o escritor Miguel Torga com uma estátua e excertos da sua obra e o chamado “guerreiro galaico”, símbolo da resistência dos transmontanos ao invasor romano.

Depois foi rumar a sul, com passagem, para muitos, pela primeira vez pelo afamado “túnel do Marão”. Ainda parámos em Almeirim, para retemperar forças com a “sopa da pedra” e chegarmos ao destino mais ricos culturalmente e mais coesos na camaradagem que cultivamos na nossa Associação.

Este passeio cultural teve o apoio do Instituto Nacional para a Reabilitação.