Comemoração do 45º Aniversário da Revolução de Abril

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Auditório Jorge Maurício – Sede Nacional da ADFA 30 de abril de 2019

Intervenção do Senhor Coronel Armando Marques Ramos

Gostaria de fazer desta minha pobre intervenção uma homenagem ao Homem moral e eticamente escorreito que tivemos por companheiro. Um príncipe, que sempre foi, no trato, amizade e sentido de doação a cada um de nós. Um exemplo de cidadão ímpar, e bem esclarecido, o Comendador de corpo inteiro, o nosso lídimo intérprete dos ideais e valores de Abril que hoje celebramos. Zé Arruda – tu estás aqui presente e queremos-te a toda a hora connosco.
Permitam-me agora arrazoar do contentamento que sinto pelo que tem acontecido um pouco por todo o País quanto às celebrações do 45º aniversário do 25 de Abril, porque elas são lições de cidadania activa e consciente para que saibamos enfrentar a intolerância, a demagogia e os extremismos que são o joio do mundo em que vivemos e que todos temos de mudar bem e depressa.
Como seria hoje diferente o nosso País se estas lições se tivessem repetido assim ao longo dos últimos 45 anos?!…
No passado dia 25 de Abril tive a honra de ser parte nas celebrações da Costa de Caparica juntamente com o Coronel de Cavalaria Alberto Ferreira, que é “Grau de Cavaleiro da Ordem da Liberdade”, e ontem fiz uma palestra na Escola das minhas netas, o que me deu imensa felicidade…
Hoje, e menos de 24 horas depois, estou perante vós para falar do mesmo tema!
Aceito que haja neste querido auditório de cidadãos responsáveis – por isso estão aqui – entre os quais muitos dos que como eu verteram o seu sangue pela Pátria, quem esteja a pensar que este “cromo” do Armando Ramos, vai a todas!…
É um facto que vou e irei a todas até que a voz me doa, parafraseando a fadista Maria da Fé, porque o que se passa no País e em todo o planeta é aterrador sob o ponto de vista das relações socio-económicas e políticas, porque se vive numa deriva e desprezo pelos valores morais e éticos que a Humanidade havia sublimado ao longo dos milénios.
E estas celebrações são um alerta para a preservação dos valores de Abril, porque aquilo a que assistimos pressupõe desleixo e complacência. É preciso uma liderança de gente competente, capaz de empreender as reformas necessárias.
Mantenhamos um Abril alerta, porque alguns governantes, estranhamente, estão a fazer perigar o interesse nacional, ao trocarem o essencial por minudências.
Estão a esquecer-se de erguer e dar o corpo ao sonho do que foi o terceiro “D” da Revolução, o do Desenvolvimento, e antes parecem maltratá-lo e malbaratá-lo.
Sinto-me um de sete biliões e meio de nautas viajando, teleguiado por loucos, entre os escolhos das derrocadas da era industrial e capitalista, a caminho da era da informação, sem lobrigar o que seja viver nessa era do futuro, e não raras vezes me encontro pessimista a estontear sofridamente sobre a sorte da geração das minhas netas!…
Vivemos no mundo das “fake news” onde alguns já fazem a guerra cibernética, controlando e ganhando eleições na casa dos outros, enquanto estes vivem aturdidos, sem ainda terem conseguido organizar a sua defesa no ciberespaço, porque somos sociedades tão enfermas que já nos é difícil distinguir entre o fútil e o essencial e entre a verdade e a mentira, e só nos ocupamos e discutimos coisas menores.
E até já a Igreja Católica se mostra confusa e a perder o norte ao pretender modificar o texto do padre-nosso, dizendo que para se adequar aos tempos modernos!… Talvez esqueçam, os que isto defendem que foi Cristo que ditou esta oração tal como chegou aos nossos dias, quando os apóstolos lhe pediram: “Mestre, ensina-nos a rezar” (ver o Novo Testamento, São Mateus 6:9-3).
É neste desnorte, que paira por todo o lado, que Abril tem que estar sempre presente, porque as elites políticas não dão atenção à meritocracia que, bem aplicada a todos os setores da vida nacional, seria o elixir contra todos os males que nos afligem. Os países chegam ao estado estacionário do desenvolvimento – o nosso terceiro “D” de Abril – quando os governantes deixam degradar a Justiça, a Educação e a Saúde, levando essa degradação às respetivas leis e instituições, a tal ponto, que as elites políticas, ávidas de rendas, passam a dominar o processo económico e político sem acerto e cuidado, na criação de riqueza que requer investimento reprodutivo.
Por tudo isto não me custa puxar pela garganta, pelo menos sentado ao lado do poeta Calvinho, “não canto o épico da guerra, mas canto a agressão que fui e suportei”, para que tal não se repita!…
Como é do conhecimento dos meus companheiros nesta mesa, a minha vivência do 25 de Abril foi tão acidentada, diversificada e sofrida, que me foi difícil encontrar uma porta de entrada para este momento solene.
Passo então a perorar sobre como, Deficiente das Forças Armadas, ferido em combate, me encontrei de armas na mão, a comandar a coluna militar das Caldas da Rainha, no dia 16 de março de 1974, em consequência do que fui parar 40 dias à prisão da Trafaria, sem a certeza do tempo que lá ia estar mas com a certeza de que tinha destruído a família e o futuro dos meus filhos, porque deixei à porta da prisão a minha mulher com dois bebés nos braços, que está aqui presente e também iria acompanhar-me no exílio nos Estados Unidos, em 1975, por me encontrar a conspirar com um amigo, que também aqui está presente, no sentido de apearmos do Poder os que considerávamos indesejáveis na condução dos destinos do País e sem apreço pela defesa da Liberdade e da Democracia.
Lembro aqui que o 16 de março de 1974 foi o resultado da chamada “cerimónia do beija-mão” dos generais a Marcelo Caetano, o que deixou em agitação todos os quartéis e quando a comissão militar se encontrava reunida, a 15 de março, em casa do hoje general Manuel Monge, com Otelo, Casanova Ferreira e eu, decidimos arrancar com uma operação de força para derrubar o regime ditatorial, quando um malfadado telefonema de Lamego nos convenceu que o CIOE já estava sobre rodas, a caminho de Lisboa, e que o mesmo sucederia com outras unidades.
Como é hoje consabido, dos quatro camaradas só eu fui bem sucedido e os outros três andaram toda a noite a fazer saltar ingloriamente as unidades militares até então ofendidas e exaltadas e a este esforço se juntou o hoje general Almeida Bruno, que, da Academia Militar tentou, pelo telefone, fazer saltar as unidades da GNR da guarnição de Lisboa, julgando que o general Spínola era por eles “idolatrado” e, sem sucesso, seria a Academia Militar cercada pelas próprias forças da GNR e o general Bruno preso quando saiu da Academia.
Fomos todos parar à prisão da Trafaria e só ficou de fora, graças a Deus, o Otelo.
É hoje comumente aceite que o golpe das Caldas da Rainha, no 16 de março de 1974, foi o “princípio do fim” do regime ditatorial e é inequívoco que os presos da Trafaria concitaram a adesão de todos os seus camaradas entre os quais, porventura, a maior parte se sentia de consciência pesada!…
Tal facto permitiu que à segunda tentativa de força irrompesse uma Revolução que, em vez de fazer correr sangue, se transformou numa “Revolução de Flores”, em que alcançamos a Liberdade, a Paz e a Democracia.
O título da celebração que aqui estamos a cumprir “A ADFA – Capitão de Abril” foi feliz porque consubstancia o facto de que muitos dos Deficientes das Forças Armadas pegámos em armas nesse dia.
A força da nossa razão não é só a razão da nossa força, porque também participámos, de armas na mão.