Mulheres dos deficientes militares: cuidadoras ainda esquecidas

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ADFA e o Dia Internacional da Mulher 8 de Março

Para a ADFA, o Dia Internacional da Mulher é uma oportunidade para evocar a importância das Mulheres que, ao longo de décadas, foram o suporte de vida dos militares que voltaram feridos, magoados e doentes, na mente e no corpo, da Guerra Colonial, no âmbito do Serviço Militar Obrigatório.

A Mulher é omnipresente na realidade de todos os deficientes militares. As nossas mães e irmãs, as nossas madrinhas de guerra, as enfermeiras paraquedistas, as enfermeiras dos hospitais militares na guerra, na metrópole e em Hamburgo, as nossas namoradas, noivas e esposas, e agora, para cada vez mais deficientes militares, as viúvas e as filhas que nos vêem partir desta vida.

São as vítimas da Guerra Colonial de quem nunca se falou. As nossas Mulheres é que nos ampararam e acompanharam nas dores, na revolta e na dureza da reabilitação, já depois da guerra, algumas já com filhos e assoberbadas pelas responsabilidades familiares. Foram combatentes como nós, na luta que travámos pela afirmação, pela reabilitação e integração social e profissional, logo após a Revolução de Abril e na fundação da nossa ADFA.

As nossas Mulheres, que cuidaram das nossas feridas mentais e físicas, na penumbra do esquecimento a que foram tantos anos votadas pela sociedade, são o pilar, a coerência, a força de que os deficientes militares necessitavam para avançar na vida apesar da deficiência.

Foi muitas vezes a Mulher que, com a sua sensibilidade e capacidade de resiliência, nos potenciou, perante uma sociedade que tem levado o seu tempo a reconhecer os direitos dos deficientes das Forças Armadas.

A ADFA presta homenagem às Mulheres, incansáveis cuidadoras informais, que tantas vezes abdicaram de uma carreira e de uma vida familiar mais serena, na sua dádiva permanente.

A Associação exige que lhes seja finalmente feita justiça, para que a reparação moral e material não fique irreparavelmente incompleta.

As nossas Mulheres, que foram simultaneamente esposas e enfermeiras, hoje são viúvas de deficientes militares, e também se sentem injustiçadas, pois as suas pensões de preço de sangue e de sobrevivência sofrem de um processo corrosivo de deterioração, que é urgente rever.

A homenagem à Mulher, especialmente às Mulheres dos deficientes das Forças Armadas, é para ser feita todos os dias, mas naquele que é o Dia Internacional da Mulher, a ADFA alerta para a urgência de salvaguardar as cuidadoras hoje ainda esquecidas, sofredoras tantas vezes silenciadas pela sociedade que fingiu desconhecer a sua dedicação.

Durante 60 anos, desde o início da Guerra Colonial, as nossas Mulheres tudo nos deram, com o seu companheirismo, a sua compreensão e paciência, em abnegado esforço mental e físico, sentindo as nossas dores e deficiências como suas. São também as nossas Mulheres, e de pleno direito, a “força justa das vítimas de uma guerra injusta”.

Merecem, por tanto amor e por tanta coragem vividos em Família, que, hoje, o Estado Português lhes preste o reconhecimento que tarda e que é urgente, para que o respeito orientador da República, que tem em Abril a sua emancipação para a Democracia, Liberdade e Cidadania, salde a dívida de Direitos Humanos de que são também credoras.

A guerra não termina para quem, depois de uma vida inteira de cuidados, vê partir o companheiro ou marido, restando-lhe o silêncio institucional do Poder, na ausência de reconhecimento e reparação que diminua o seu sofrimento.